
Passado uma semana após o grande show do guitarrista STEVE VAI em BH, meu estado emocional ainda continua alterado. O interessante é que após eu ter compartilhado o acontecimento com outras pessoas que tb lá estiveram, vejo que não foi exagero nenhum de minha parte. É unânime a opinião e a crítica dos muitos fãs e críticos musicais. Li diversos comentários e críticas sobre o show, mas uma particularmente me chamou a atenção.
Confira a REVIEW de Maurício Gomes Angelo do site WHIPLASH...
Desde que o anúncio foi feito, no entanto, logo passei a lembrar das inúmeras críticas que artistas virtuosos vêm sofrendo nos últimos anos. E duma espécie de indisposição geral da mídia em lidar com eles. Simplificados a meros velocistas ególatras e excêntricos fazedores de acrobacias desnecessárias. Como se a arrogância e o puro exibicionismo gratuito fosse regra em detrimento da música bem composta, pensada e elaborada de forma a dar vida às mais intensas aspirações, refletindo os anseios e sentimentos de seu criador. Em resumo, costumo sintetizar minha visão sobre música dizendo que ela é a maior força que tenho notícia. E, dentro de algumas das possibilidades que proporciona, Vai mostrou, em duas horas e meia de espetáculo, ser um mestre inquestionável daquilo que faz.
Seu virtuosismo, velocidade e pirotecnia são absolutamente orgânicos e contextuais, trabalhando em prol daquilo que suas mãos imprimem nas seis cordas. Ele sabe, perfeitamente, como impactar, entreter e arrebatar seu público, no fundo, brincando com a alma de cada um ali.
“Now We Run”, pesadíssima, abriu a noite e logo conquistou a ala mais “heavy” dos presentes, aqueles que chegaram até Vai essencialmente por ouvirem rock e metal. Já “Building The Church”, ainda com um peso acima do normal, deu uma amenizada nas coisas e abriu caminho para que “Tender Surrender”, o primeiro clássico, começasse a fazer o público lacrimejar. Depois, a apresentação da banda foi a oportunidade ideal para Vai revelar-se um autêntico “mestre de cerimônias”, regendo os vários momentos do espetáculo e seu próprio grupo, dando oportunidade para cada um se destacar e demonstrar seu talento – algo decorrente ao longo do show nos solos individuais e “duelos” memoráveis. Para acompanhar um artista deste porte, sua banda de apoio não pode ser menos que excelente. E, embora Dave Weiner (guitarra) e Philip Bynoe (baixo) estejam com ele há muitos anos em idas e vindas, não deixa de fascinar a competência e a qualidade monstruosa apresentada, especialmente do último que, pasmem, está substituindo Bryan Beller no Brasil. Troca-se a peças, não há perda de técnica e profissionalismo.

Deixados por último não por acaso, Alex DePue e Ann Marie Calhoun – violinistas - são absolutamente fundamentais ao conceito e à atmosfera de “String Theories”. Mais que isso, suas intervenções adicionam cores, tons e texturas interessantíssimos à música de Vai.


E aqui vale ressaltar que, para o show ser completamente apreciado, faz-se necessário que o espectador saboreie o som do violino. Em dado momento da noite, inclusive, notava-se uma certa ausência de guitarras (entre o solo da dupla e o de bateria, intercalados por “All About Eve”, “The Beast” e “Angel Food”), o que só foi resolvido quando Steve retomou o controle e executou a soberba “The Audience Is Listening”.
Nesta altura, já impressionava a simpatia e o carisma de Vai. Desde o início do show extremamente simpático e solto em cima do palco, ele demonstrava uma desenvoltura fora do comum, com pleno domínio do que acontecia ao seu redor e conquistando a todos com gags hilárias e comentários bem-humorados. Steve nem de longe se assemelha ao estereótipo do rock star ranzinza, pedante e insuportável. Ao apresentar o baixista, perguntou “do you like funk? funk, hum?” – não sei se fazendo uma referência irônica a existência do estilo brasileiro de “funk”, na verdade um pastiche piorado do miami beat que nada se assemelha à fantástica obra de Sly & Family Stone e Parliament, por exemplo – para logo após dizer, “eu gosto de James Brown, ele dançava mais ou menos assim”, e começou a imitar os clássicos passos do “Mr. Dynamite”. O tempo todo agradecendo, apontando, fazendo comentários, arriscando diálogos, usando a guitarra para brincar com o público, além de suas tradicionais caras, bocas e trejeitos característicos, Vai é um autêntico showman, um performer como nenhum outro no mundo da guitarra. O esperado gesto de “tocar com a língua”, por exemplo, não poderia faltar.
Por fim, a composição mais amada e reverenciada: “For The Love Of God”. A parte inicial, feita pelo violino de Ann Marie, foi simplesmente de se lacrimejar. Sendo um dos solos mais belos e tocantes de todos os tempos, estes 10 minutos foram indubitavelmente inesquecíveis. Inefável, acredite. Faltam palavras para descrevê-la.
Ovacionado e coberto de aplausos, Steve ainda demonstra humildade ao agradecer de forma inesperadamente sincera, juntando toda a banda no tradicional gesto de reverenciar o público: quando este o fazia de volta em retribuição.
A conclusão é óbvia. Nenhum outro guitarrista consegue conciliar tão bem o aspecto técnico, a virtuose, a grandeza das composições e ser, ao mesmo tempo, artista no palco, entretendo, divertindo, fazendo um espetáculo completo e nunca entediante em suas duas horas e meia de duração.

Trocando emails com o colega e sub-editor Thiago Sarkis antes da data, lembrei que a segunda-feira seria um dia ingrato para a apresentação e, brincando, perguntei se compensaria. Ao passo que ele me respondeu:
“Você não vai se arrepender. Aliás, digo mais, nenhuma noite de segunda-feira vai valer tanto a pena quanto essa... você nunca gostará de uma noite de segunda-feira tanto quanto vai gostar dessa.”
Profético. Realmente, esta foi a melhor segunda feira da minha vida. Creio que, não só para mim, mas para a imensa maioria dos presentes ali, esta tenha sido o melhor começo de semana que já tiveram.
Como se a perfeição de fato existisse, a música escolhida para tocar nos PA’s após o encerramento foi “Hallelujah”, na interpretação orgástica de Jeff Buckley – algo que merece muitos pontos para Steve ou a sua equipe. Música sublime para uma noite idem.
Não há nenhum receio em sentenciar: coisa de gênio!
(Texto de Maurício Gomes Angelo e fotos de Thiago Sarkis e Rafael Pascini)
Obs.: Como um comentário final, só gostaria de acrescentar que os detalhes descritos por Mauricio Gomes Angelo formam os mais perfeitos e reais possíveis. Nenhum mínimo detalhe sequer foi acrescentado ou esquecido, valendo a pena ressaltar ainda, a crítica técnica avaliando a performance, o repertório e o estilo do guitarrista.
Agora acham mesmo que eu estava exagerando?
Ricardo M. Freire