

Sua banda, em que começara como baixista, já havia gravado dois LPs e compactos, e na qual haviam atuado músicos como Jorge Amiden, Vinícius Cantuária e Cézar de Mercês, alcançara algum reconhecimento do grande público pela balada “Tributo ao Sorriso”, apresentado num Festival Internacional da Canção, e respeito da comunidade rock pelo álbum “Terço”, que trazia boas músicas como “Deus”, “Estrada Vazia” e “Lagoa das Lontras”.


O lado acústico da banda brilha em “Queimada” (Flávio Venturini - Cézar de Mercês). O som das violas, baixo elétrico, percussão e os vocais são a pitadinha de folk que faltava na mistura que gerou a banda. Uma música sem grandes pretensões que, cedo, tornou-se uma das favoritas do álbum.
“Pano de Fundo” (Sérgio Magrão - Cézar de Mercês), é mais uma retomada ao estilo de rock característico do Terço. Merece destaque a criatividade de Moreno no trabalho percussivo, tanto na introdução quanto no fim, o baixo de Magrão e o solo, com jeito de Santana, de Sérgio Hinds.

Sérgio Hinds compôs “Volte na Próxima Semana” e o público dos shows tornou esta mais uma música obrigatória no setlist. Rock mesmo, lembrando as músicas do disco anterior, tem na guitarra a principal arma do arranjo, com o baixo dobrando novamente. O bom trabalho de Moreno, que não foge da tentação de suingar a batida em todos os momentos é uma das boas coisas da faixa, mas os vocais, mais parecidos com a fase Vinícius Cantuária, são os mais fracos do disco.
Para o início do Lado B, a música que dá nome ao disco, “Criaturas da Noite” (Flávio Venturini - Luiz Carlos Sá), com a abertura feita pelo piano de Flávio e os vocais da banda, apoiados por um naipe de cordas, tem um gosto de Sá, Rodrix & Guarabyra inconfundível, deixando bem claro o quanto um grupo influenciou o outro, inclusive pela parceria. O vocal solo é de Flávio e a guitarra solando com os violinos completa o clima onírico sugerido pela letra.
“Jogo das Pedras”, que retoma o clima de “Queimada” com um pouco mais de peso pela inclusão de bateria, teclado e solo de guitarra, entrou pela tangente em “Criaturas da Noite”. O disco já estava pronto e uma das músicas gravadas, “Raposa Azul”, foi substituída por ela em cima do laço. Se a decisão foi acertada ou não, são outros quinhentos. O que importa é que a inclusão de “Jogo das Pedras” reforçou essa ligação com o rock rural e deu oportunidade ao Terço de enveredar por novos caminhos musicais. Apesar de “Raposa Azul” ter um clima mais progressivo e uma introdução marcante, seria apenas mais uma música.
A peça que encerra este excelente disco é, para dizer o óbvio, grande: pelos seus longos 12min26s de duração, pela grandiosidade da composição e pelo nível de execução dos músicos. “1974” (Flávio Venturini) é, sem sombra de dúvida, uma das melhores coisas do progressivo brasileiro daquela época. Com o clima suave criado pelo piano que é paulatinamente sendo interrompido pela intromissão do baixo, prato de condução e guitarra dobrada e distorcida, a banda nos coloca numa atmosfera frenética como o de uma Cidade Grande, de qualquer parte do planeta. O ouvinte pode se imaginar, por exemplo, andando apressado numa rua movimentada de Sampa, Nova Iorque ou Tóquio e, de repente, encontrando um espaço no caos para deixar o pensamento fluir livre, até ser arrastado a contragosto para a turbulência novamente.
As vocalizações com resposta e depois o instrumental, onde a guitarra de Hinds tem o seu melhor momento em todo o álbum, nos mantém nesse nível de intercessões contínuas de euforia/relaxamento até que, em determinado momento, parece que tudo morre, menos o teclado, arrastado e melancólico, com a voz de Flávio e a guitarra de Sérgio Hinds induzindo um lamento à mente do ouvinte. Perda da inocência: o baixo vai buscar nossa alma e trazê-la de volta à dura realidade dos tempos modernos, com o resto da banda. Mas a guitarra volta para reclamar uma brecha e, finalmente, o piano e o vocal nos devolvem a paz e a esperança em tempos mais amenos. Agora, todo o peso da banda não consegue mais do que reforçar essa idéia e, a medida que a música se aproxima do fim, a felicidade vai inundando a alma e o coração do ouvinte até que este explode num sintetizador que vai desaparecendo, insistindo em se manter no rodamoinho de seu próprio som. Uma viagem.
Mesmo com alguns problemas técnicos, que qualquer demo de hoje passa por cima, “Criaturas da Noite” foi um marco para o rock nacional e colocou a banda, para sempre, na história.
Criaturas da Noite (1975)
Músicas:
1- Hey Amigo (Cézar de Mercês)
2- Queimada (Flávio Venturini - Cézar de Mercês)
3- Pano de Fundo (Sérgio Magrão - Cézar de Mercês)
4- Ponto Final (Luiz Moreno)
5- Volte na Próxima Semana (Sérgio Hinds)
6- Criaturas da Noite (Flávio Venturini - Luiz Carlos Sá)
7- Jogo das Pedras (Flávio Venturini - Cézar de Mercês)
8- 1974 (Flávio Venturini)
Produção Musical: O Terço
Direção Artística: Paulo Rocco
Arranjos Orquestrais: Rogério Duprat
Participações Especiais:
Cesar De Mercês - vocal e percussão nas faixas 3 e 4
Marisa Fossa - vocal na faixa 4
Formação:
Flávio Venturini - voz/piano/órgão/sintetizadores e viola
Sérgio Hinds - voz/guitarras e viola
Sérgio Magrão - baixo e vocal
Luiz Moreno - bateria e vocal
Fonte: Whiplash
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