

É que, se a água circula, torna-se muito fácil contaminá-la por inteiro. Assim, o Comitê Científico de Pesquisas da Antártida que reúne cientistas de 32 países e supervisiona todas os projetos de estudo no continente decidiu que o lago só será abordado depois que for comprovado um método limpo, isto é, capaz de tirar amostras lá do fundo sem provocar alterações no ambiente aquático. Uma idéia é usar um minirrobô teleguiado que mergulhe e borrife anti-sépticos à sua volta para impedir que micróbios da superfície entrem de carona no ecossistema desconhecido.
Só então será possível saber que mistérios, além das bactérias letárgicas, o Lago Vostok abriga. Pode haver bichos ainda mais inimaginados, como algas do gelo. Ou seres parecidos com medusas primitivas, as diatomáceas, um pouco mais do que gosmas vivas. Será fascinante descobrir como a vida evoluiu e se adaptou a esse mundo insólito.




Até agora, as tentativas de reanimá-las fracassaram porque não sabemos como crescem e proliferam, diz o cientista. Será preciso aprender mais sobre elas. Por enquanto são um enigma. Verificou-se apenas que possuem alguns genes similares aos de dois grupos de micróbios, as proteobactérias, que existem no solo, e os actinomicetes, que moram comumente na água. Só que o parentesco deve ser bem distante.
Os habitantes do Lago Vostok devem ter o organismo mais lento já visto. Boa parte dos microrganismos se reproduz a uma velocidade estonteante. Geram um ser completo a cada 30 minutos. Já as bactérias do Vostok devem ser hiper-retardadas. Procriam uma vez em um século.

Os cientistas especulam que os seres do Vostok existem graças ao escasso calor emanado do centro da Terra. Isso lhes daria força para, vagarosamente, digerir migalhas orgânicas de carbono e nitrogênio aprisionadas no gelo. Os alienígenas que se supõe existirem em Europa a lua de Júpiter tão enregelada quanto a Antártida podem ter evoluído da mesma forma precária.
Uma das descobertas mais importantes feitas pelos pesquisadores que estudam o Lago Vostok é que a água se acumula lá depois que o gelo sobre o solo rochoso se derrete, esmagado pelo seu próprio peso. A 3.600 metros de profundidade, a pressão é 350 vezes maior do que a da atmosfera, gerando um calor suficiente para manter a temperatura em torno de zero grau Celsius quase 80 graus mais quente do que a céu aberto na Antártida.
Em alguns pontos, entretanto, o termômetro esfria e a temperatura cai um pouco abaixo de zero. Com isso, o líquido volta a congelar, o que acaba produzindo a circulação de água. Analisando as imagens de radar, descobriu-se que o lago está sempre trocando água com o gelo acima dele. O processo é muito lento. Leva 10.000 anos para encher o Vostok por completo.
Curiosidades
- O Lago Vostok não é o único sob o cobertor frígido da Antártida. Imagens feitas por radar mostram que há mais sessenta ou oitenta cavidades líquidas no continente. Apesar de serem bem menores, também podem abrigar seres minúsculos.
- A pressão lá embaixo é 350 vezes maior que a da atmosfera. Ela espreme o gelo e o aquece de 80 graus Celsius negativos até um pouco acima de zero grau.
- No fundo do Vostok há lama e detritos orgânicos. Os cientistas acreditam que poderão encontrar aqui seres nunca vistos.
- Uma parte do líquido permanece no Vostok até meio milhão de anos. Com o termômetro pouco abaixo de zero grau, a água que encosta no gelo volta a enrijecer, formando uma placa.
- Bactérias desconhecidas foram achadas nesta parte da placa, de água recongelada. Sua população chega a 1.000 exemplares por litro de gelo derretido. Em 1 litro d'água da superfície há 1 bilhão de exemplares. Parecem um chumaço de algodão.
- No fim do túnel, as camadas de gelo têm 400.000 anos de idade. Sob pressão do gelo, o buraco tende a se fechar. Só continua aberto porque recebeu uma injeção de 60 toneladas de querosene. A composição molecular do líquido resiste ao esmagamento.
Fonte: Superinteressante
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